Quando nasci um anjo torto
desses que vivem nas nuvens
disse: "Vai, Sara! Ser bocó na vida..."
- Poeminha de Duas Faces - a suja e a mal lavada.¹
Talvez eu já tenha comentado por aqui que era realmente bocó quando pequena.
Não que seja esperta hoje (nop), mas eu era realmente uma criança estranha boazinha.
Para exemplificar, me ignorem se eu já tiver citado a história lembro de um natal aí. Sei nem quantos anos eu tinha direito. Chuto uns 9 ou 10. Neste ano minha avó (que sempre dava os melhores presentes) resolveu que nos levaria (minha irmã mais velha, meu tio da minha mesma idade e eu) até a loja de brinquedos pra gente escolher nossos presentes.
Todo mundo pode imaginar como nós estávamos entusiasmados com isso... eu ansiava pela possibilidade de ser a dona & proprietária do sonho de consumo de toda menina daquela época: uma boneca barbie!
Eu tinha uma barbie de papel daquelas que vinham na revista e você recortava a boneca e as roupas. Brincava por horas a fio com ela. Imagine quando tivesse uma de puro plástico?? Affffffffff, era emoção demais.
No caminho para a loja, minha avó seguiu entoando o mantra de todo adulto prestes a soltar tigres famintos crianças numa loja de brinquedos: "sem birra, vovó não pode gastar muito, sem briga, vovó não tem muito dinheiro, vamos levar coisas baratinhas, vovó não pode pagar nada muito caro". Minha irmã e meu tio nem ligaram para isso, como toda criança normal. Eu empaquei.
Fiquei o resto do percurso inteiro imaginando que eu faria minha avó ficar pobre se pedisse alguma coisa cara. Ela era tão boa e não podia passar necessidade depois só pra que eu tivesse um brinquedo. Como ela pagaria as contas? Como ela sobreviveria??? COMO???
Cheguei na loja com o coração apertado. Juro. E acompanhei minha irmã direto pra prateleira das bonecas Barbie. Elas estavam lá todas sorridentes em seus vestidos de festa e suas caixas rosa-shocking, etiquetadas com o salgado preço de R$ 50!
Uau! A maior soma de dinheiro que eu já havia ganhado até essa época tinha sido a exorbitante quantia de R$ 1! Que foi gasto na aquisição de dois sorvetes! #gordinhafeelings
R$ 50 era a fortuna do Tio Patinhas (em moedinhas, é claro).
Deixei minha irmã namorando as bonecas e fui ver o meu tio... não me interessei muito pelo brinquedo que ele havia escolhido, acho que era um carrinho de controle remoto ultra mega power... e o preço? Também algo por volta de R$ 50.
Pronto, Sarinha! A falência da sua avó está em suas mãos. Aquilo me corroía... Barbie ou minha avó? Barbie ou minha avó?? Venceu aquela que tinha o melhor sorriso... minha avó. (Mentira, minha avó era bem rabugenta naquela época... hoje ela é um doce S2)
Rodei e rodei na loja tentando encontrar alguma coisa barata. Parecia impossível. Não havia cartinhas, bonequinhas, joguinhos... tudo era grande, caro, exorbitante, fora dos limites!!!
Por fim, andei tanto que encontrei uma boneca de R$ 18. Era o mais barato que eu havia encontrado até ali. Hoje em dia você consegue comprar Barbie de R$ 12! Original! Naquela época todos os brinquedos eram caros demais...
E fui para o caixa encontrar meu tio com o seu carrinho de controle remoto e minha irmã agarrada na caixa da Barbie-com-vestido-de-festa-preto-e-prata-e-salto-alto-e-bolsa.
Aquela foi a boneca mais feia que já tive na vida. O coração dela brilhava, tipo o E.T. Nunca simpatizei com aquele tamborete de forró enrugado e zoiudo.
Esse foi apenas um exemplo da minha bocozisse. Eu era preocupada demais, ansiosa demais. E boazinha demais. Nossa, meus pensamentos eram assustadores (sob minha ótica atual hehehe). Eu era boa de verdade. Nunca queria o mal de ninguém, mesmo daqueles que me xingavam na escola (bullying? Rá! Eu rio na cara dele), entoando canções nada legais... e eu sempre mudava de escola. E as crianças sempre eram cruéis com as gordinhas recém-chegadas com cara de pastel.
Aos poucos fui me transformando. Tomando um posicionamento. Eu ainda era boa, mas não me importava mais com o que os outros falavam, cantavam, diziam, escreviam na carteira.
Passou a puberdade. Tive um surto de autoconfiança surpreendente.
Blá blá blá.
Adolescente e relativamente legal. Minha mãe pedia pr'eu não sair, eu não saía. Fazia tudo o que ela pedia... eu era uma chata kkkkk.
E tudo isso pra dividir com vocês um sentimento um tanto quanto novo para mim, surgido nestes últimos meses, talvez neste último ano.
O ódio.
Um ódio tão grande que eu podia imaginar um tijolo sendo atirado na cara da pessoa alvo do sentimento. E eu riria muito disso #megusta.
Um ódio espantosamente grande, perturbador. Devastador. Que não ia embora. Ficava sempre ali, à espreita. Um sentimento de injustiça transformado no mais puro e simples e viscoso ódio.
Não sei como saí da ignorância inocência para simpatizante de Hades, sequer percebi esse caminho. Mas o meu negócio recentemente era ver o circo pegar fogo com a contorcionista piriguete queimando em sua roupa barata no meio do picadeiro. Com a sua boca de gaveta derretendo.
Em algum momento eu percebi que aquilo estava definitivamente me fazendo mal pra burro. E resolvi parar. Mas foi difícil decidir isso... Principalmente por que depois de abrir as comportas seria difícil fechá-las de novo, não é isto o que dizem?
Como voltar a ignorar as pessoas mesquinhas e odientas que fazem mal só por esporte??? Que cagam no mundo e riem dos outros??? COMOOOOOOO?
Imaginei que não seria possível. E até hoje não foi.
Hoje passo algum tempo afastando esse sentimento. Tentando entender, direcionar, apaziguar. Mentalizar que o bem do outro é o meu bem.
Estou me (es)forçando. De verdade.
Sei que ainda assim me daria muito prazer se uma certa pessoa tomasse bonito no cu. Com areia.
Ok, me perdoem a última expressão. Se ofendi alguém, foi mal.
Mas era realmente necessária para externar meus sentimentos.
Que sirva de inspiração para aqueles que estão internados no sanatório :)
E de fonte de estudo para aqueles que tratam dos acima citados!
¹ Inspirado no
Poema de Sete Faces, do Carlos Drummond de Andrade :)