sábado, 30 de maio de 2009

Despertaram-lhe...

Despertaram-lhe os primeiros raios de sol. Havia ainda um certo torpor. Despertara, mas somente uma leve consciência surgira ainda. Sabia que estava frio. Sempre acordava quando sentia frio. As pálpebras pesavam, mas a mente ficava mais leve. Os pés encolhiam-se, unidos. As mãos protegiam-se sob os braços cruzados. Como estava gelado ali, quanto barulho. O frio era justificável, pensava, "é junho". Já o barulho... que sons são estes, afinal? Lembravam algo. "Inferno". Que torpor era esse?

Dormira mais do que precisava, era costume. Tentou abrir os olhos. Muito claro. Cerrou-os novamente. "Merda". Agora sim, estava desperta. Plenamente consciente do frio, do barulho. Virou-se e muito mais preocupante do que a temperatura que fazia doer os seus pés ou os ruídos estranhos e ao mesmo tempo familiares, era o fato de estar deitada no chão. O torpor deu lugar à surpresa. Mexeu-se, espantando a dormência e sentiu o corpo na superfície dura. Abriu os olhos e realmente estava muito claro, mas forçou-os. Espalmou a mão no chão, empurrando-o para conseguir desprender-se dele. Olhou ao redor. Confusa, vislumbrou o céu aberto, contemplando dolorosamente uma manhã clara. Pessoas andando de um lado para o outro.

O barulho era de cidade, carros buzinavam ao longe, perto agora. Encostou-se numa parede, num poste, era uma espécie de parapeito. Levantou-se, tentando entender o que estava acontecendo. Rápido demais. Tonta, cambaleou uma vez, mas agarrou-se firme ao parapeito. Alguém passou perto demais, quase esbarrou nela, que agarrou-se ao braço do transeunte. Era um homem meio careca, meio baixo. A única coisa que conseguiu articular foi o pensamento pungente que ocupava-lhe inteira: "Onde eu tô?". Ele desvencilhou-se da mão desesperada que tentava segura-lo, olhou-a, não nos olhos, e continuou caminhando. Um pouco mais a frente, virou-se novamente para vê-la e seguiu seu caminho. Ela elevou a voz, não para fazê-lo ouvir, mas por que elevava-se também a sua confusão "Onde...?".

Olhou em volta, procurava algo. O quê? Não sabia, mas continuava a examinar em volta, buscando algo que se encaixasse. Deu um passo vacilante, "pra onde?".

Estava descalça. A visão dos seus pés nus naquele chão áspero foi um baque. Um turbilhão de perguntas surgia na sua cabeça, mas elas debatiam-se umas nas outras, o único eco era a questão.

O ar realmente estava frio, movia-se de um lado ao outro, tentava perguntar, tentava explicar. As pessoas desviavam dela, com olhares severos. Resolveu parar. Como poderia explicar? "Respira!".

Sentou-se, sem notar, quase no mesmo lugar onde despertara. Precisava respirar e colocar as coisas no eixo. O coração batia depressa, "respira...".

Apoiou a cabeça confusa nas mãos. Era óbvio que algo estava errado. Muito errado. Mas, se aquilo era 'o errado', o que era 'o certo'? Sabia que não deveria ter acordado no chão, no frio, na rua. Então onde deveria ter acordado? Aliás, por que dormira ali? Onde era esse 'ali', onde estava? O coração acelerou novamente, ficou enjoada. "Respira". Não conseguia, o enjôo aumentou. "Respira, caramba". Vomitou. Ficou tonta novamente. Entorpecida, não sabia mais o que fazer. Levantar, correr, gritar.

Deitou-se, estava frio, muito frio. Adormeceu. Passou o dia ali, deitada. Passou a noite.

E então, despertaram-lhe os primeiros raios de sol...

E imagem: http://www.flickr.com/photos/cleberfigueiredo/2879873927/in/set-72157613572188053/

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