quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Falível

Caminho logo cedo por entre as árvores e folhas. A chuva fina e fria, incessante, salpica os óculos e embaraça meus cabelos. Salteio algumas poças, desviando aqui e ali do meu caminho. No alto, nos galhos mais altos, cigarras "cantam". Muitas. Em uníssono.
Li, ouvi, em algum lugar que as cigarras cantam até explodir.
Enfim termino meu trajeto. Chego, tento me secar um pouco no banheiro. Apesar de refeita, o ar-condicionado não me deixa esquecer do início da minha manhã: congela as minhas roupas, meus dedos, arrepiando.
Tentava me salvar, o ar-condicionado. O frio me aproximaria dos grandes poetas românticos, tão pneumônicos em sua agonia.
No transcorrer do tempo, nada mais além do que já existe. Concentrada, estou ali resolvendo e tentando resolver.
Cigarras. Podia jurar que, ao fundo, ainda as ouvia.
Toca o telefone uma vez mais. Os números que aparecem não se ligam a nada.. "Oi. Sou eu."
Não era uma ligação. Era A ligação. A primeira, a última, a constante.
Respondo, surpresa: "Ãhn... oi. Tudo bem?"

Despejadas as palavras, ainda assim, possuem nexo. Mas batem em meu corpo e escorrem. Não ouço.
Em mim, desenrola-se um filme em que aquela mesma voz e aquelas mesmas palavras estavam.
Apenas ouvindo ainda, interrompo um minuto e tampo o fone para pedir que avisem alguém que o outrem precisava vê-lo ainda hoje. Era urgente. Retorno ao filme, disparado pelo som que escorria do telefone.
"É isso. Tô esperando, então, que você resolva."
Cigarras. Queria ouví-las novamente. Naquele barulho insuportável tão "silencioso". Caladas estariam as lembranças sob o som da sinfonia cigarrítica.
Não respondi. Esperei até que eu retornasse a mim. Mas não cheguei. Por falta de quórum, dei por encerrada a questão e desisti. "Ok."
Eu resolvo.

Sem mais, nunca há mais, despede-se e desliga.
Eu ainda não cheguei. Estou por aí cantando, à plenos pulmões, unida, uníssona.
Retorno aos poucos, lenta e desconfiadamente. Percebo que o ar-condicionado continua seu penoso e eficiente trabalho de enfiar agulhinhas geladas em meus dedos dos pés. Sou questionada por mim mesma: "Onde estava?". Dou com os ombros "Não sei."

Diante daquela janela nublada, do som espectral das cigarras, percebi que havia retornado falível.
Ruindo. Caíram pequenas partes, depois maiores... ruí. Silenciosa como aquele canto.


Dizem que as cigarras cantam até explodir.

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