quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Emergindo...

Do fundo da água doce, ela emergia. Na verdade, estava à caminho disto. Nadava o mais rápido que podia, vendo muito acima de sua cabeça a luz do sol batendo na superfície. Precisava de oxigênio, mas não era por isso que emergia. Emergia por que devia. Era o que devia ser feito.

Para trás ficava o seu amor. Sentado na Atlântida perdida do sonho mais inocente, ele ficou. Para trás. Quando segurou sua mão e a convidou para o mergulho no fundo daquelas águas escuras não exitou. Ela! Justo ela que tinha tanto medo das profundezas...

Descobriu lá embaixo, sob o peso e a pressão superficial, que não era mais de oxigênio que seus pulmões precisavam, nem de alimento ou da brisa em seu rosto. Pertencia àquele reino de águas profundas. Seus pés e mãos escondiam a voluptuosidade das reverberações das águas, seus olhos abertos vislumbravam as diversas nuanças e o passeio rápido dos peixes e demais seres que entre seus cabelos e vestes e corpo nadavam. O frio era tão seu quanto das pequenas rochas e da areia do fundo daquele rio.
Fundo, muito fundo era o verde-água. E profunda era a vontade de sentar-se junto ao seu amado sob os milhões de litros de tudo do mundo e entrelaçar os dedos com ele, sentindo a pressão e mergulhando mais e mais em seus olhos castanhos-fluídos.

Mas havia lá na superfície a necessidade fantasma de ar para os seus pulmões. Relutante, disse que subiria. Ele se opôs, pediu-lhe sossego. Ela pediu-lhe silêncio. Mais uma palavra dele e nunca mais voltaria ao mundo do ar... mas precisava.

Ele calou-se. E ela começou sua subida. Batia as pernas o mais rápido que podia, tanto que seus músculos queimavam. Alcançou a superfície, saiu cambaleando para o sólido, que a machucava, e pôs-se a caminhar... Seus dedos e pés e pele e braço sentiram a falta de tudo aquilo que os circundava há poucos minutos. Seus cabelos, que antes lhe coroavam a face no vai-e-vem das pequeninas ondas e correntes, caíam escorridos e pegajosos e molhados e frios e estranhos no rosto. Os olhos ardiam estranhando aquelas partículas poeirentas e ásperas. E seus pulmões... seu pulmões doíam como se mil facas lhes perfurassem. Cada golfada de ar respirada representava uma tortura.
Percebeu de imediato que nunca havia pertencido àquela terra. E continuou com seus passos no chão seco, rumo às montanhas...


Imagem extraída do
Deviant Art
*-*

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