A distância
Vez ou outra me pego pensando na distância que há entre o chão e o espaço.
Me pego sentada no carro, esperando o semáforo abrir e percorrendo com os olhos o caminho que vai do solo, subindo pelo ar, cruzando nuvens delicada e objetivamente, alçando altura à medida em que avanço, sentindo frio e, então, sufocando com o ar rarefeito. Até que enfim me distancio tanto e sigo.
Flutuando, penso nas árvores que seguiram no solo, nos carros passando apressados, pessoas preocupadas com o preço do dólar e da gasolina e com o fim do mundo, que será transmitido após a novela das nove.
E sigo flutuando, impulsionada agora pela teimosia em ir, escapando da gravidade da Terra, seguindo, saindo.
Olhando para o caminho percorrido, percebo que martela em mim a inquietação da pergunta:
“Será que ainda vai lembrar de mim?”
Naquele chão há dois pés firmando um corpo, que segue e anda e respira e fala. Que talvez não vá mais se lembrar de mim quando partir.
Esse corpo anda e respira, segue e passa desapercebido do meu ocorrido.
O corpo tem um dono cuja voz escuto dentro do peito, vibrando como cordas e irradiando seu calor enquanto atravessa espaços em que já estive.
De onde estou, me aqueço com o calor do encontro e do corpo, cuja presença sequer conheço ainda.
Penso no ar que envolve esse corpo e entra em seus pulmões e conhece um pouco quem ele é, ainda que de maneira breve.
A gravidade não é nada sem o corpo que segue andando e caminhando lá embaixo. Ele me puxa, mais forte do que a da Terra, e começo minha jornada de retorno.
Me ocupo na descida, suave, até sentar em meu carro novamente, ainda olhando o semáforo. No peito carrego o calor daquele corpo e me divido entre o que foi e o que é, e também no que poderia ser.
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