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Lampejo

Distraída por alguns pensamentos numa manhã cheia de domingo, parei minha xícara no ar enquanto me vinha um lampejo. Desde muito nova eu os tinha: eram sopros de coisas que eu sabia. Agora sabia. Até bem pouco tempo eles se misturavam com sinais de uma ansiedade crescente que se disfarçava de intuição e vinha soprar medo em meus ouvidos. Mas a luz ilumina apenas o que existe, já os medos moram no que não é (ainda) e assim eu os diferencio. Algum tempo de vida depois (tanto tempo quanto ainda espero ter pela frente), aprendi a entender esses lampejos.  Para mim funciona assim: como se numa floresta à noite, em meio a uma forte chuva, viessem clarões sem barulho. Diferentes dos raios, que simplesmente riscam o céu freneticamente buscando o conforto da terra, o lampejo se anuncia calmo, como quem vem apenas para iluminar um pouco o escuro.   Quando esse lampejo acontece, revela como um flash o pouco da mata ao redor, destacando o que eu já sabia - ou já imaginava que havia a...

Mãos

Suas mãos doíam.   As palmas com pequenos furos e rasgos de espinhos, vermelhas, quentes, voltadas para cima, enquanto observava o estrago.  As mãos lavaram-se, devagar e com jeito, tentando cuidar uma da outra com delicadeza. Água fria e limpa caía sobre elas, levando as manchas, mas não as dores.  Os pequenos cortes latejavam, reclamando.  Os pequenos cortes não matam, é claro. Incomodam.  E ela sabia: levaria um tempo para voltar a realizar as tarefas cotidianas sem sofrimento. Mesmo a menor tarefa exigiria flexionar e estender as palmas, que lembrariam de suas mazelas e doeriam.  Parecia que a culpavam por tudo o que se passou.  As palmas, os dedos, os olhos, os medos… sabiam. Sabiam que a culpa era dela por insistir.  E ainda assim insisto, ela pensou, leve, mansa, mas obstinadamente.  É o preço por segurar algo tão bonito. Mesmo que por breve momento, sem que se dê causa ou aperte, pode se machucar.  Na verdade parecia certo que se...

A distância

Vez ou outra me pego pensando na distância que há entre o chão e o espaço.  Me pego sentada no carro, esperando o semáforo abrir e percorrendo com os olhos o caminho que vai do solo, subindo pelo ar, cruzando nuvens delicada e objetivamente, alçando altura à medida em que avanço, sentindo frio e, então, sufocando com o ar rarefeito. Até que enfim me distancio tanto e sigo. Flutuando, penso nas árvores que seguiram no solo, nos carros passando apressados, pessoas preocupadas com o preço do dólar e da gasolina e com o fim do mundo, que será transmitido após a novela das nove.  E sigo flutuando, impulsionada agora pela teimosia em ir, escapando da gravidade da Terra, seguindo, saindo.  Olhando para o caminho percorrido, percebo que martela em mim a inquietação da pergunta: “Será que ainda vai lembrar de mim?”  Naquele chão há dois pés firmando um corpo, que segue e anda e respira e fala. Que talvez não vá mais se lembrar de mim quando partir.  Esse corpo anda e res...

Um percevejo

No inicio, havia um ponto e outro ponto, e outro. Que reconto e conto e conto. Já contei tantas vezes que nem me lembro como me sinto sobre isso. É uma reticência sem fim. Às vezes penso em não contar mais. Eu poderia me revestir de muitos véus de mistério, olhar de esguelha quando me perguntassem e responder com uma frase misteriosamente indefinida. Não me parece comigo.  Pois eu sou aquela que fala. Muito menos do que pensa, infinitas vezes menos do que pensa, mas fala. Porque meu coração transborda. E, egoísta que sou, quero transborda-lo em você, te afogar no que sinto e no que me afogo todo dia. E por isso jorro. Jorro novamente as palavras em uma página em branco, em um blog vazio. E o cursor pisca-pisca-pisca, o 'delete' come as palavras escritas. And still I rise.  Peço licença à Maya Angelou para usar suas palavras em um contexto menos nobre do que aquele para o qual foram primeiramente escritas… mas minhas constantes reticências me fazem dizer 'You may...

Partida cancelada

Aeroporto. Um solo de transição, regado pelas expectativas de milhares de pessoas. Muitas carregadas de tudo que lhes é mais caro e/ou querido no mundo. Sentado na cadeira cinza fria você espera seu destino. Ou não. Não há meio termos na vida ou em aeroportos. Ou desembarca o furacão que faltava na sua vida... Ou não. Ou não. Sentada num quarto semi organizado penso que "não". A minha vida corre como um bicho selvagem, sem rédeas, jamais levando mais do que segundos para escolher a nova trilha, olhos assustados, coração aos pulos. Nem sempre é ruim. Nem sempre.  Mas é preciso de chão. De trilha. Preciso encontrar uma fonte de água para refrescar a alma, o coração.  Esse chão pode se concrerizar não em concreto, mas em decisão. Um referencial de quem eu sou, de quem eu posso ser Quero, vou, fui, não vi, voltei, mas sei que um dia de novo eu irei. Partida cancelada.

Se se morre de tristeza

Quando se olha para dentro e só se encontra o nada. O medo. A dor e o desespero. Quando isso acontece, parabéns, você atingiu o fim. Daí só se sobe, certo? Errado. Quando se sabe bem cavar, cava-se fundo demais. Tal como um astronauta cego pela ânsia da descoberta, empreendeu sua jornada subindo, subindo (cavando, cavando), sem preocupar-se se haveria combustível suficiente para retornar. Pois bem, não havia. Só lhe restou sentar nas pedras, apoiar o queixo nas mãos e pensar. O pensamento é veneno. Mata aos pouquinhos, furando a pedra no gotejamento infinito da ideia... Que cava, cava, cava. Eu sou, eu sou, eu sou dor da cabeça aos pés. E só tô cantando essa dor porque não há mais nada a fazer com ela... Só deixar esvair e me esvair.

Uaaaaauuuu

Mais um ano sem escrever por aqui. Acho que já virou minha nova periodicidade literária pública. Haverá vida após o bloqueio literário devido ao caos instalado em minha cabeça? (Parece um torvelinho de fios, emaranhados. Puxa um, periga arrebentar os outros.) Pelo menos consegui rever os textos que joguei por aqui. Varri alguns pra debaixo do tapete e outros li como se meus não fossem.