Lampejo
Distraída por alguns pensamentos numa manhã cheia de domingo, parei minha xícara no ar enquanto me vinha um lampejo. Desde muito nova eu os tinha: eram sopros de coisas que eu sabia. Agora sabia. Até bem pouco tempo eles se misturavam com sinais de uma ansiedade crescente que se disfarçava de intuição e vinha soprar medo em meus ouvidos. Mas a luz ilumina apenas o que existe, já os medos moram no que não é (ainda) e assim eu os diferencio. Algum tempo de vida depois (tanto tempo quanto ainda espero ter pela frente), aprendi a entender esses lampejos. Para mim funciona assim: como se numa floresta à noite, em meio a uma forte chuva, viessem clarões sem barulho. Diferentes dos raios, que simplesmente riscam o céu freneticamente buscando o conforto da terra, o lampejo se anuncia calmo, como quem vem apenas para iluminar um pouco o escuro. Quando esse lampejo acontece, revela como um flash o pouco da mata ao redor, destacando o que eu já sabia - ou já imaginava que havia a...