Lampejo
Distraída por alguns pensamentos numa manhã cheia de domingo, parei minha xícara no ar enquanto me vinha um lampejo.
Desde muito nova eu os tinha: eram sopros de coisas que eu sabia. Agora sabia. Até bem pouco tempo eles se misturavam com sinais de uma ansiedade crescente que se disfarçava de intuição e vinha soprar medo em meus ouvidos. Mas a luz ilumina apenas o que existe, já os medos moram no que não é (ainda) e assim eu os diferencio.
Algum tempo de vida depois (tanto tempo quanto ainda espero ter pela frente), aprendi a entender esses lampejos.
Para mim funciona assim: como se numa floresta à noite, em meio a uma forte chuva, viessem clarões sem barulho. Diferentes dos raios, que simplesmente riscam o céu freneticamente buscando o conforto da terra, o lampejo se anuncia calmo, como quem vem apenas para iluminar um pouco o escuro.
Quando esse lampejo acontece, revela como um flash o pouco da mata ao redor, destacando o que eu já sabia - ou já imaginava que havia ali.
Lampejo… sinto e vejo gotas caindo, sacudindo as folhas, escorrendo por tudo. Então, no escuro ouço o ribombar dos baldes de água caindo do céu na mata fechada.
O lampejo ilumina a mim e a tudo, mas quando vejo tudo, vejo nada ao mesmo tempo… novamente no escuro ouço o silêncio em meio ao caótico estardalhar do temporal que vai.
Tudo se ilumina rapidamente e novamente e vejo o disparar dos incômodos e silenciar dos movimentos.
Em outras vidas, vividas espremidas dentro dessa mesma, a cada lampejo meu coração salta, na ânsia da fuga. Mas sei que há a chuva, independente do correr.
E quando me vem o lampejo eu observo os céus e agradeço.
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