Mãos
Suas mãos doíam.
As palmas com pequenos furos e rasgos de espinhos, vermelhas, quentes, voltadas para cima, enquanto observava o estrago.
As mãos lavaram-se, devagar e com jeito, tentando cuidar uma da outra com delicadeza. Água fria e limpa caía sobre elas, levando as manchas, mas não as dores.
Os pequenos cortes latejavam, reclamando.
Os pequenos cortes não matam, é claro. Incomodam.
E ela sabia: levaria um tempo para voltar a realizar as tarefas cotidianas sem sofrimento. Mesmo a menor tarefa exigiria flexionar e estender as palmas, que lembrariam de suas mazelas e doeriam.
Parecia que a culpavam por tudo o que se passou.
As palmas, os dedos, os olhos, os medos… sabiam. Sabiam que a culpa era dela por insistir.
E ainda assim insisto, ela pensou, leve, mansa, mas obstinadamente.
É o preço por segurar algo tão bonito. Mesmo que por breve momento, sem que se dê causa ou aperte, pode se machucar.
Na verdade parecia certo que se machucasse.
E ainda assim insisto, ela disse em voz alta, para que suas mãos, a água que escorria e suas palmas a ouvissem, enquanto se cuidavam.
Nos lábios um pequeno sorriso inabalável.
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